Ser ou não ser.

Quando penso em sociedade, em grupo, em comunidade, chego a uma conclusão fatídica sobre mim mesma: tudo isso me traz tédio. É, não me enquadro, não gosto e não admiro a vida em coletivo. Questões sociológicas nunca me tocaram ou interessaram. Alienação social? Misantropia? Talvez os dois… E você dirá o quão discrepante é uma futura psicóloga expressar antipatia pela sociedade. Concordo, em partes. Há uma sutil variável.
Meu desprezo não é pela humanidade em si, mas por suas características prevalecentes. Sua generalização desenfreada. O homem, enquanto objeto de estudo, me fascina. Mas os homens, enquanto pluralidade massificada, me dão cólera.
Admiro o funcionamento da individualidade no sujeito, a construção e a manifestação de sua subjetividade, suas significâncias e introjeções, sua visão de mundo. Talvez por sentir-me um ser individualista, admiro e busco compreender essa individualidade nos demais. Mas não consigo enxergar uma subjetividade coletiva, uma significância coletiva. Não faz sentido pra mim toda essa difusão geral de valores, vejo isso como uma vulgarização do saber, do sentir.
Às vezes me incomoda essa maneira de ser, porque as pessoas me cansam com sua contaminação universal, seus bens e maus comuns, suas opiniões manipuladas inconscientemente, suas vidas ditadas e prescritas. A felicidade evanescente, utópica… Enfim, esse produto embalado pela sociedade, que se tornaram as pessoas, faz com que eu tenha cada vez menos laços e cada vez menos apreço em mantê-los. Porque seus rótulos estampados na cara ofuscam meus olhos… E ofuscam meu ego, que não quer enxergar a identificação projetiva, não quer descobrir-se parte dessa grande rede de marionetes.
E como não ser? Como deixar de fazer parte do que te é inteiro? Eu sei que essa visão misantrópica é apenas um desejo de alhear-me a minha própria condição determinada de ser social. Desejo irrealizável. E sei também desta condição, sei que sou também agente e autora da vida social, e que minha liberdade e minha autonomia de vida individual são ilusórias, porque meus pensamentos e ações são também fruto da sociedade instituída a qual invariavelmente instituo.
Isso quer dizer que, mesmo que olhe a sociedade com olhos externos, eu estou ali, no meio. E sou, sem saber que sou, parte dela. E sou, mesmo sabendo que não sou, alheia a ela.
Mas não aceito, como quem recebe ordens superiores, essa condição. Serei um ser discordante, uma corda desafinada nessa orquestra de instrumentos regidos cegamente, e seguirei dissonante; aquela nota desarmônica e descompassada. Eu não sou daqui, mesmo sendo.

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4 respostas para Ser ou não ser.

  1. Bruno Freitas disse:

    Adorei a reflexão, amor. Inteligente e fascinante. A sociedade é instintiva, injusta, imperfeita e oscilante. Porém, ou se vive nela ou nela se vive. É a nossa cruz. Adaptar-se é a tarefa que devemos buscar sempre, mesmo que nossas opiniões – quanto ao sistema, em grande maioria, sejam totalmente contraditórias.

    Um beijo do namorido!

  2. Erica Gaião disse:

    FELIZ por ter um post teu, bonita! Quanta saudade. Quanto tempo. E aí você vem com um texto que reflete exatamente o meu estado de consciência emocional (se é que existe este termo. Continuo inventando termos, palavras, significados. Continuo me reinventando, para não morrer de tédio). Estou cansada, também. E faz tempo, viu? O problema é o muito do mesmo. Uma unica direção. A mesma fôrma para moldar tanta gente. O problema é abrir os olhos e encontrar gente linda, poética e encantadora, recitando poesia que nunca leu. O problema é o saber massificado, criado para ser assim, porque é assim que a sociedade é manipulada. O problema é ter que caber em algum lugar ao qual você não quer fazer parte, porque vê as tais discrepâncias. Porque tem uma visão crítica do mundo, mas convive, porque tem que ser assim, porque é assim. Porque, mesmo sem querer, também é parte desse todo massificado. O problema é doutrinar o riso, a fala, a palavra, para não contrariar o mundo. O problema é… São tantos, Aline, que deixaram de ser, pelo menos para mim. E aí, agucei os meus sentidos e só enxergo, ouço e tenho perto de mim, o que é de verdade. O que importa. O que não for, não entra em mim. É parede branca, sem nada, que não me diz nada. A gente pode se adaptar, conviver, sem se perder, doer ou contrariar nossas certezas, entende?

    Amei, como sempre amo tudo o que você escreve. E não é de hoje.

    Saudade!

    Beijos nossos!

  3. Lineee.. Segue EU aki no negocio… wordpress

  4. Paulo Uzai Junior disse:

    Primeiro, desculpe! Acho que você não me conhece, nunca me viu, mas acredito que de alguma forma deveríamos ter nos conhecido. Eu faço psicologia na UNESP-Bauru, estou no quarto ano. Você faz psicologia não é? Na UNESP? Enfim, de qualquer forma, você deve estar se perguntando como é que eu achei teu blog. Já me explico: Estava procurando uma antiga mensagem do meu amigo Fernando Goy e, desta forma, digitei o nome dele na barra de busca do Google. Por incrível que parece o nome dele estava associado ao seu blog logo na primeira página. Abri a página e vi um poema logo de cara; pensei “Bom, já que estou aqui, por que não ler?”. Li, gostei e acabei lendo também seu perfil no blog (aí descobri que você faz psicologia e tudo o mais). Foi uma terrível coincidência que me levou até esse fatídico momento, onde estou a escrever um comentário sobre uma de suas reflexões.
    Segundo, acho que sua angústia pós-moderna não chega a ser tão jovem assim. Já na Grécia, há dois mil e quatrocentos anos (mais ou menos), vê-se essa angústia, tão humana, de se perder aquilo que é mais nosso: a individualidade. A vida de Sócrates foi exatamente a de destruir o falatório geral; as opiniões de senso comum reinantes. Enfim, não vou entrar nos detalhes sórdidos dessa história tão velha; mas tão presente; de nossa história humana, pois o que eu quero ilustrar com isso é algo simples: o problema do “eu”; mais especificamente das influências do eu.
    Olha eu não vou ficar aqui escrevendo e escrevendo, pois não quero tomar (mais do que já estou tomando) o espaço do teu blog. Esse é um tema que me interessa bastante, pois sempre me senti um estrangeiro no meio dessa porcaria toda chamada existência. Mas talvez o que te irrite mais (assim como me irrita) é a massificação humana, seja dos sentimentos, pensamentos, o Diabo. Acho que a diferença fundamental de nossa sociedade e as sociedades do passado é justamente isso. É quase que uma homogeneização mundial. Não sei, ao que parece todas as pessoas tem medo de pensar diferente do que seu grupo de referência pensa… Aliás, todo mundo tenta desesperadamente se enquadrar num grupo, achar um grupo, ou seja lá o que for. E, pior ainda, soltam ideias nas quais julgam ser muito sui generis, mas mal sabem como aquela ideia foi parar em suas cabeças. E enquanto escrevo isso, fico a pensar como tirei tais conclusões; quais foram minhas influências. – Como você, sinto que sou e não sou ao mesmo tempo. Boa parte do que sou simplesmente não sou eu; é algo externo… Algum intruso estrangeiro que me invadiu, e fez eu ser isso que sou hoje. E no meio dessa montanha de fatores externos, onde está o verdadeiro eu? – A individualidade, no meio de todo esse mundo massificado, está seriamente comprometida. Não sei se há algo de verdadeiro na individualidade humana; se ela existe realmente… Mas acho que no momento que eu parar de acreditar nela, será o fim de todas as coisas para mim!
    Bom, chega, chega! Acho que escrevi demais e, pior ainda, de forma muito desorganizada. Como eu disse, esse tema me interessa muito. Não vou escrever mais, se não farei uma postagem monstruosamente grande.
    Enfim, achei o blog interessante. Talvez visite mais vezes… Talvez não. Quem sabe? Não sei a que turbilhão de coincidências eu vá entrar na próxima vez.

    Forte abraço.

    PS: Eu realmente não deveria estar escrevendo isso, mas acho que você poderá gostar. Eu escrevi um conto e o publiquei, recentemente, num site (segue o link no final dessa postagem). Eu não escreveria nada sobre o conto caso não percebesse que você poderia se interessar por ele. Bom, caso realmente não esteja interessada, simplesmente desconsidere esse PS.
    http://www.bookess.com/read/12623-transmigrando-para-o-nada/

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