Um sábado qualquer?

Neste sábado, junto ao Projeto Sorrir, visitei um dos asilos da cidade. Nada de diferente do que costumamos fazer, porém, neste dia, conheci uma senhora muito doce, que carinhosamente chamarei de Dona E. Magra, branquinha, acamada por uma fratura na costela, cabelos brancos de neve e os olhinhos verdes já com sinais de catarata, essa velhinha mal sabe o quanto me acrescentou…
Logo que me aproximei, com o rosto pintado e nariz vermelho, ela contou que seu pai era palhaço de circo, e que ela gostava muito de palhaços e piadas, que seu pai era muito divertido… Logo caímos num longo papo, muito lúcido, por sinal.
Sem perceber, Dona E. me inspirou tanto! Vi naquela velhinha a alegria e o valor pela vida que não vejo em muitos jovens. Aliás, não só a alegria, mas a lucidez, nos seus talvez oitenta e tantos anos, muito maior do que as mentes sãs e viris que vemos por aí. Enquanto ríamos e brincávamos, ela me disse:
É muito bom isso, a juventude, vocês têm que aproveitar porque passa muito rápido. É preciso aproveitar a vida!
Aproveitar a vida, não é? Isso sim, ouvimos sempre de muitos jovens, mas, perceba, ela não estava se referindo à  exageros e demasias, não estava a falar de inconseqüências e impulsividades, ela estava a falar de vida! Viver, pra ser feliz…
E você, leitor, que acha que felicidade na vida é trabalhar, estudar, casar, ter filhos e pronto, pasme: Dona E. não tinha filhos, Dona E. nem sequer havia se casado. Disse ter tido apenas um namorado, que faleceu logo cedo. Trágico? Não… Muito pelo contrário, ela estava ali naquela cama, com os olhinhos brilhando e cheia de orgulho de si mesma, e me disse:
Não casei, não tive filhos, mas tenho muitos amigos e filhos de coração. Eles vem sempre me visitar, me trazem presentes, doces, todo mundo aqui fica muito impressionado, porque minha cama está sempre rodeada  de gente.
Quis brincar, e disse que eu não tinha levado nenhum presente, ela completou:
Mas não precisa! Importa-me muito mais a amizade, eu acho muito importante as amizades, muito melhor que presentes e doces!
Isso ecoou na minha alma, cheguei em casa e chorei. Chorei porque essa velhinha é tão feliz que eu senti todos os meus problemas pequenos demais…  Sou tão jovem, com uma vida toda pela frente, enquanto Dona E. já viveu toda uma vida, provavelmente com muito mais problemas e dificuldades do que eu, e estava ali a contar sua história como quem levanta um troféu. Admirei-a cada segundo que estive ali…
Eu disse a ela o quanto ela é alegre, sorridente, encantadora, ela olhou a volta e disse baixinho:
Sabe o que é? Eu não gosto de fuxico, de gente que faz e fala o mal, aqui e em todo lugar tem muita gente assim, que já acorda esbravejando e falando besteiras. Sabe o que eu faço? Tampo os ouvidos, finjo que estou dormindo. Na vida, temos que aproveitar o que tem de bom e deixar o ruim de lado.
Perfeito! É exatamente o que eu também acho. E dizem que velhinhos ficam chatos e amargos, e eu acho que as pessoas é que fazem da vida chata ou amarga, e isso independe de idade. O que você é e faz hoje, vai indubitavelmente projetar o seu eu no futuro.
Dona E. foi feliz! Do jeito dela, independente dos planos que ela talvez tenha feito. Perdeu os pais jovem, não casou, não teve filhos, e quem disse que ela talvez não tenha sonhado com isso? Mas, ela foi feliz, ainda que tudo tenha saído ao contrário… Foi e ainda é, não a ouvi reclamar de nada, nem de sua situação atual, nem de seu passado. Dona E. é uma pessoa plena, desde o início! Feliz consigo mesma…
Essa é a máxima, ser feliz consigo mesmo! Não atribuir a felicidade à coisas ou à pessoas, não atribuir a felicidade à planos e objetivos, mas ser feliz hoje, independente das pessoas ou das coisas ou dos sonhos… Porque se tudo der errado, você terá aí dentro a força necessária para continuar, criar novos começos.
Quem é feliz, consegue exalar alegria, e cativa as pessoas! Quem é feliz atrai o amor verdadeiro, quem é feliz nunca estará sozinho, ainda que não tenha ninguém. Quem é feliz, como a Dona E., terá sempre o leito rodeado de pessoas alegres, dispostas a doar sorrisos, e será sempre admirado, até o fim da vida.
Nunca mais vou me esquecer dessa velhinha! E, sabe, quando envelhecer quero ser como ela…

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“Eu aprendi…
…Que quando o ancoradouro se torna amargo, a felicidade vai aportar em outro lugar.”
(William Shakespeare)

Pense nisso! 😉

Obrigada, Projeto Sorrir!

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7 respostas para Um sábado qualquer?

  1. Lívia disse:

    Nossa! Que lindo esse texto! Literalmente uma lição de vida. Mesmo sem ter conhecido essa senhora também fui cativada por seu exemplo de vida pela forma com que você a descreve. Que a máxima de “Ser feliz consigo mesmo” e ter alegria pela vida também cative muitos outros.

  2. Dani disse:

    NOssa, adorei o texto…pura verdade.
    Viver a vida e ser feliz, se você não ser feliz, não fazer a sua felicidade, quem mais fará?

  3. José Bolívar disse:

    Esse nem demorou uma semana ou um mês em Aline??!?!?!
    Mas foi rápido e intenso assim como o que sentiu nesse Sábado….
    Acho que todos que lerem, conseguirão sentir exatamente o que sentiu nestas suas poucas palavras!!!
    Ótimo texto!!!

  4. Vanessa Cony disse:

    Pois é ,Aline!Querida Aline.Importante ter olhos atentos e coração aberto a voz da experiência.Acreditar que o que passou ajuda no que ainda não chegou…
    Sabe,seu jeito de menina sempre me surpreende,pois junto a ele percebo o quanto teu coração é grande e pronto para receber tudo o que a vida tem para ensinar.
    Beijo no teu coração.

  5. Erica Gaião disse:

    Aline, meu anjo!

    Hoje, sou eu quem diz: Eu precisava ler isso. Você mergulhou aqui dentro de mim e plantou a sementinha da alegria…

    Subitamente somos acometidos pela desesperança, mas o que me faz permanecer e insistir na felicidade é que do mesmo modo súbito que sou tomada pela tristeza, sou tomada, também, por esse sentimento revigorante denominado fé na vida. É ele que nos faz conhecer o conceito de felicidade. É ele que nos faz acreditar que vivemos o que foi possível viver, da melhor maneira que poderia ser, independente dos sonhos concretizados ou não. Vejo sonhos como meta. Vejo sonhos, como aquilo que nos impulsiona junto à realidade, mas nem sempre, eles são conhecidos como realização. Às vezes os sonhos são apenas uma das formas de manter a chama da coragem acesa.

    Talvez dona E. tenha vivido e experimentado – com coragem – as coisas sob todos os ângulos; talvez ela tenha conhecido o bom e o ruim das coisas todas, para ao final de uma vida, saber que a sua insistência em querer ver o lado bom tenha sido, sem dúvida alguma, a melhor opção. E, talvez, ela tenha vivido os seus sonhos (realizados ou não) da melhor maneira possível, ao ponto de entender a sutil diferença entre viver e viver bem.

    Lindo seu texto, amiga! Lindo esse trabalho tão lúdico e ao mesmo tempo tão sublime.

    Beijos, minha querida Aline Erba

  6. Vanessa Cony disse:

    Carinho gostoso no teu coração!!!
    Sorrisos…

  7. Ercico disse:

    Olá..
    Acho que encontrei mais um anjo… Amei seu texto, o mundo precisa de pessoas assim!!
    Deixo um abraço amigo 🙂

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