Verdades de Junho.

Engraçado como em época de dia dos namorados a carência exala por todos os poros das pessoas (que se dizem solitárias)… E a carência denuncia toda a fragilidade, toda fraqueza e instabilidade humanas.
Vi muita gente reclamar, lamentar, maldizer, e no meio disso tudo, ficou claro uma característica em comum entre elas – não são felizes. Não são felizes e não sabem. Não sabem e acham que querem alguém pra dividir os sonhos, mas buscam alguém que as salve. Como podem estar felizes se precisam ser salvas?
É contraditório.
Isso tudo envolve as questões da sociedade e da pós-modernidade, não se sabe ao certo o que se busca e o que traz sentido à vida, por isso as pessoas atribuem ao relacionamento amoroso o papel de dar à vida um toque mágico e glorioso, atribuem ao outro o papel de salvador, de herói. Ninguém espera um amor manso, querem mais que o príncipe chegue derrubando a porta e salvando a princesa do dragão. Mas quem é o dragão?
O dragão são as próprias pessoas…
As pessoas querem ser salvas de si mesmas, querem se esconder no outro, fugir da vida vazia e sem sentido que levam, inconscientemente. Mas, como alguém pode dar ao outro aquilo que não possui em si? Como alguém pode trazer felicidade à outra pessoa se não é feliz? O amor verdadeiro não chega aos corações amargos…
Não há como resultar uma vida feliz na soma de duas vidas infelizes, nem uma relação saudável de dois corações enfermos. É importante saber que ninguém salva ninguém! Pelo menos não literalmente, pode-se atribuir um sentido poético nisso, porque na verdade o outro sempre vem somar em nossa vida, trazer outros horizontes e possibilidades, mas nunca resgatar toda uma vida.
Também há muita gente que busca nos relacionamentos uma transferência de afetos, buscam alguém que dê aquilo que não foi dado por outra pessoa, serão esses os futuros relacionamentos em que não se vê dois amantes, mas uma mãe e um filho, vice e versa –onde não se quer amar, mas cuidar, ensinar, não se quer ser amado, mas cuidado, criado- e toda a inversão de papéis possíveis. São relações patológicas, onde a pessoa busca mudar a vida da outra, melhorar a vida da outra, mudar sua visão de mundo, fazer com que a outra pessoa cresça, tudo, menos amá-la incondicionalmente.
Eu não sou alheia a isso tudo, não sou diferente, já pensei exatamente assim e busquei exatamente as mesmas coisas, mas hoje, não mais. Eu percebi que amargura só me afastava as melhores pessoas, e só se achegavam a mim as pessoas compatíveis a essa amargura. Percebi que não posso querer mudar nada nem ninguém, que o amor traz sim mudança, mas por conta da profunda reflexão que ele inspira, não por força de imposição.
Hoje, eu não quero alguém que me salve da solidão, não quero alguém que me salve de coisa alguma! Tampouco quero salvar alguém! Não vejo a solidão como martírio nem o amor como salvação… Eu quero sim o amor, carência não é privilégio de alguns, é uma inerência humana e eu também sinto, mas eu quero merecer o amor, quero merecer senti-lo e doá-lo, quero saber o que fazer com ele para não o matar nem o mutilar. O amor é mais que relacionamento, é estado de espírito; o amor só pode ser fruto de duas almas felizes e plenas, não nasce em poços vazios…
Por isso, você aí, que lamentou até o último segundo o dia dos namorados sozinho, repense! Limpe o seu coração, pois, com licença ao filósofo, até o mais doce mel azeda num recipiente sujo. Preocupe-se menos em não ter um namorado, preocupe-se mais em não ter alegria, felicidade, bom humor, vontade de viver, conteúdo, positividade, otimismo… O resto vem!
Se conheça, se aceite primeiro, para que possa ser aceito e aceitar alguém. Tenha o domínio da sua vida, antes de dividi-la com alguém, para que você não deseje ser salvo nem salvador, mas apenas ser admirado e admirador, queira o apoio, não o heroísmo milagroso.
Entenda que o amor não pode ser uma necessidade, mas uma dádiva; a ânsia do amor sem limites impede o amadurecimento emocional. Desnuda sua própria solidão e encare-a, compreenda-a, fugir dela é fugir de si, e quem foge de si jamais se encontrará no outro, apenas se esconderá nele.
Já disse Fernando Pessoa em sua frase que eu faço lema: “Para ser dois, antes, é necessário ser um.”.

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3 respostas para Verdades de Junho.

  1. Marinha disse:

    “… acham que querem alguém pra dividir os sonhos, mas buscam alguém que as salve. Como podem estar felizes se precisam ser salvas?”
    Aline, teus textos são perfeitos!!! Analisas, ponderas, ofereces ingredientes à reflexão de uma maneira tão simples e tão desnuda de complexas fórmulas! amo esse espaço!
    Bjo, querida.

  2. Vanessa Cony disse:

    Aline,que saudades…
    Nossa vida é nossa.Não podemos entregá-la a terceiros.
    Podemos compartilhar,mas entregar seria uma perda.Perda da própria vida.
    Podemos viver com o outro e isso é bom,mas não precisamos do outro para viver. Precisar do outro pode trazer a morte no abandono.
    Só podemos amar quando nosso próprio amor se sustenta em nós e não no outro.
    Então esse amor melhora nossa vida mas não sustenta nossa vida.
    Nossas vigas são nossas e de mais ninguém.E se por ventura essa viga compartilhada for retirada,arrancada não iremos desabar.Continuaremos de pé sustentadas por nós mesmas. ( in Amando sempre)
    Escrevi esse texto em agosto,mas por muito tempo isso não foi verdade para o meu coração.Ainda acredito que a racionalidade em relação ao amor é coisa complicada até mesmo para os mais inteligentes mas a busca por esse entendimento engrandece ,alimenta e traz amadurecimento.Torna o relacionamento saudável e isso é busca.
    Houve um tempo em que fiz terapia e aprendi que lidar com as verdades ajuda muito.Entender as ¨coisas ¨certas da vida de alguma forma penetra dentro da gente ,nem que seja por osmose.
    Aline, você tem talento e nem mesmo sua juventude nos impede de perceber que será uma profissional de qualidade.
    Beijo lindinha,no teu coração.

    Obs : Todo o resto virá!

  3. Erica Gaião disse:

    Aline, meu anjo!

    Saudade imensa de você…

    É… Amor é assim, uma dádiva, uma oferta e não uma busca incessante e desenfreada. A gente não persegue amor para curar dores e feridas. Também não é uma questão de sorte ou merecimento (escrevi sobre isso em um texto que publiquei ano passado. Acho que foi no “Ainda sobre as coisas da vida”).Na verdade o amor está em nós. É muito mais o comportamento; o “como” eu me comporto diante dele, e não o tamanho daquilo que eu sinto.Posso dizer uma amor gigante e não me comportar como, entende? Posso dizer uma amor gigante e exigir dele algo acima daquilo que ele pode me ofertar.

    E solidão, às vezes, é apenas um estado de espírito. Posso estar cercada de gente; posso ter um namorado, um marido, alguém, e me sentir completamente sozinha. Solidão também é uma das incontáveis fragilidades humanas que, às vezes, pode ser tratada com poesia para transformá-la em algo mais suportável.

    “Percebi que não posso querer mudar nada nem ninguém, que o amor traz sim mudança, mas por conta da profunda reflexão que ele inspira, não por força de imposição” é verdadeiro! E talvez essa reflexão é o que nos faz dizer o amor da maneira ideal e não da maneira real.

    Mas você tem razão: Tem gente que busca muita coisa em um relacionamento. Tem gente que quer mudar o outro; tem gente que quer do outro aquilo que ele não consegue oferecer. Tem gente que exige do amor aquilo que não depende dele. Mas há uma diferença enorme entre aquilo que vivenciamos na realidade e aquilo que sentimos como um amor ideal. Às vezes a gente escreve o amor com poesia, mas sabe que, no que diz respeito à realidade, toda poesia do amor reside na sua simplicidade. E de fato, ninguém salva ninguém de nada… Eu não me comprometo com aquilo que eu não posso cumprir. Já disse isso publicamente, inúmeras vezes. Essa história de curar dores, tristezas, entender silêncios, ausências, só tem sentido na poesia. Porque na vida prática, somos seres frágeis e nem sempre condicionados à compreensão. Ninguém é tão abnegado assim… E não há nada, absolutamente nada, que sobreviva a falta de reciprocidade. Uma hora a gente cobra do outro:presença, amor, alegrias. Não tem jeito.

    Amei as duas citações: Pitagoras e Pessoa. Dois sábios, cada um a seu modo.

    Obrigada pelo comentário deixado lá. Vou responder lá, como sempre faço. Andei bem ausente,mas vou retornar aos poucos.

    Ótimo post, como sempre

    Beijos, querida!

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