Crônica das estações.

“Às vezes a vida volta” disse Clarice. É verdade.
Mas ela não volta atrás, ela não retrocede. Como as ondas do mar, as coisas que se vão às vezes voltam, renovadas, mais mansas ou ferozes; elas não voltam do passado, voltam do presente distante onde se escondiam. Nunca sabemos quando a vida volta, mas parece sempre ser quando menos se está preparado, quando você acha que se recuperou da última onda que te derrubou e está a caminho da areia, ela te pega de costas.
Penso também ser algo como as estações, elas sempre voltam, mas essa volta não é para o passado, é uma volta ao redor do próprio presente. E da mesma forma alguns fatos me parecem cíclicos, como o último outono que chegou quando uma parte de mim se foi… E agora, outro outono chega, como uma onda mansa e fria, trazendo de volta aquela parte de vida extraviada.
Eu estava a caminho da areia, firme, forte, decidida, porém, distraída. Equilibrei-me e não caí, dessa vez. E talvez eu nunca vá cair como antes… Mas, quem não se sente balançar pelas ondas? E não se arrepia ao ser pego de surpresa pela água gelada? Quem não treme com o frio, mesmo com o Sol a pino?  São essas as coisas que nunca mudam.
Jamais saberei quanto tempo duraram aqueles instantes, mas minha mente transcendeu qualquer ponteiro, tais instantes são atemporais, e secretos. Eu e minha interioridade, tanta coisa amontoada num coração apertado.
Ah, apertados foram aqueles braços… Apertados ficam os olhos e, às vezes, o chakra laríngeo, com todas as faltas que sobram.
Eu não queria ir embora ou despertar daquele pedacinho de “para sempre”, mas precisei me afastar, antes que fosse possível sentir meu coração disparado. Paradoxal, fugir do abraço ao qual se gostaria de pertencer, por medo da denúncia dos sentidos.
Não pense você que tenho medo de admitir o estremecimento, não mentir pra si mesmo é a maior entre as virtudes, e eu tenho coragem o suficiente! Mas admitir é diferente de aceitar… Quatro estações se passaram e há ainda as coisas que nunca mudam!
E toda a vida que roda em roleta russa ao meu redor, toda a vida ausente em meu presente, e esses outonos e invernos que me deixam sentindo tanto frio de corpo quente. São sempre esses os dias desleais…
Quantas estações são necessárias pra se esquecer um instante? Ah, como é difícil ir embora de coração frio quando os braços abertos são cobertores.
Há sempre um não-sei-o-que naqueles olhos castanhos de tempestade, há sempre um algo-alguma-coisa subentendido no que não entendemos, há sempre uma entrelinha entre a linha que nos une e nos separa. Há sempre as coisas que nunca mudam… E permanecem mudas.
E naquela tempestade eu talvez seja a única a ver o arco-íris, a pureza e a fragilidade ocultas. E atrás do verão do sorriso, sinto um coração de inverno. Tola, sei que o mesmo se reflete em mim, e no silêncio compartilhamos nosso segredo mais sincero.
Não ouso interromper o outono, não ouso antecipar o inverno, também não quero que o gelo derreta antes da hora. Deixo em livre curso as estações de nós dois, cada um em seu ciclo íntimo e particular, um dia eles se encontram ou se perdem de vez…

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Cheia de metáforas, essa é uma crônica subjetiva.
Carregada de significados implícitos que talvez não sejam compreendidos ou notados. Mas é que às vezes a gente escreve pra nós mesmos…

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6 respostas para Crônica das estações.

  1. Marinha disse:

    Tuas metáforas estão revestidas de verdade e sabedoria, Aline. Há um querer viver, mas nenhuma vontade de acelerar até mesmo o que mais deseja. Amei o texto!!!
    Bjo, querida.

  2. A.S. disse:

    Tudo acontecerá no tempo certo!… Quem floresce no outono não chega a saber a cor das suas pétalas!…

    Beijos…
    AL

  3. Erica Gaião disse:

    Aline, meu anjo!

    Que TEXTO! Sou suspeita por que as metáforas me descrevem, me escrevem e me completam… Não deixe que as estações lhe façam esquecer aquele instante de amor que acontece de tempos em tempos. Porque são esses instantes que fazem sentido. São eles “o para sempre” na memória dos grandes acontecimentos. É exatamente aí que as coisas não mudam; que atravessam o oceano do tempo, mas permanecem eternamente no mesmo lugar.

    “Há sempre um não-sei-o-que naqueles olhos castanhos de tempestade, há sempre um algo-alguma-coisa subentendido no que não entendemos, há sempre uma entrelinha entre a linha que nos une e nos separa. Há sempre as coisas que nunca mudam… E permanecem mudas.” É muito poético. É enxergar além dos limites da visão. E enxergar além é enxergar com amor. Bem assim… E eu achei LINDO!

    Amo descrever o amor assim. Amo quando descrevem o amor assim!

    É a gente escreve não para que os outros entendam, mas para que a gente entenda os nossos pormenores internos. Talvez assim as coisas passam a fazer algum sentido. Eu descobri isso na queda e pelo visto você também.

    Obrigada pelo comentário generoso deixado lá. Como sempre, respondi lá também.

    Beijos, minha querida amiga!

  4. Vanessa Cony disse:

    Aline…Que bom sermos diferentes.Assim aprendemos mais e vir aqui pra mim é aprendizado.
    ¨Há sempre as coisas que nunca mudam… E permanecem mudas.¨
    ¨Deixo em livre curso as estações de nós dois, cada um em seu ciclo íntimo e particular, um dia eles se encontram ou se perdem de vez…¨
    Eu creio! E acho esse o melhor caminho.
    Beijo no seu coração.
    Obs: Obrigada pelo seu carinho.

  5. Vanessa Cony disse:

    A propósito,escrever sobre o que carregamos dentro não significa apenas tentar explicar aos outros o que sentimos.É desabafo .Tira o sufoco de dentro do peito .Assim conseguimos respirar fundo , coninuamos então a viver e a seguir …Em frente.
    É uma forma de entender e compreender o significado de parte de um todo que somos nós e os nossos próprios sentimentos.
    De qualquer maneira,quando venho aqui,mesmo você escrevendo pra você,eu aprendo.
    Mais uma vez,beijo.

  6. Vanessa Cony disse:

    Saudades…

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