Amor e mito.

O que é o amor? O que é amar? As respostas que ouço são sempre tão típicas que pensei ser de muito bom grado fazer uma reflexão mais profunda.
Há tempos tentei exprimir minha concepção de amor e hoje me surpreendo ao notar o quanto minha visão estava turva. Mas a culpa não foi minha, acontece que a nossa cultura e a nossa sociedade nos impulsiona a uma visão de amor completamente errônea e destrutiva, desde pequenos somos ensinados que o amor é estado mágico de graça e fascínio, onde não há espaço para a razão e a reflexão, crescemos acreditando e, conseqüentemente, incorporando uma idéia de Amor Romântico (Ouça, quando digo Romântico, não estou a falar de gentileza, as pessoas também confundem Romantismo com gentileza, cordialidade, carinho e todos os tantos sentidos figurativos, eu me refiro ao Romantismo em sua essência, enquanto movimento, aquele em que se ressaltava o drama humano, amores trágicos, ideais utópicos e desejos de fuga da realidade).
A sociedade Ocidental tem como característica peculiar o fenômeno –em massa- do Amor Romântico, dentro do qual há a busca incessante da plenitude, do êxtase, do sentido da vida e da resolução de todos os problemas. Somos a única sociedade a cultivar o ideal do amor romântico e a fazê-lo base dos casamentos e relacionamentos amorosos, o que nos força a acreditar que essa é a única forma de amor, o único verdadeiro amor, isto é, ignoramos completamente as demais visões do amor, como por exemplo, a dos orientais.
Esse ideal irrompeu e dominou o Ocidente na Idade Média, a partir de um mito nascido na Era Medieval, o famoso Tristão e Isolda, isso quer dizer que, em um mundo pós-moderno, vivemos numa sociedade com tendências e ideais ainda medievais, no que diz respeito ao amor. O amor pós-moderno, aqui, ainda remete-se ao mito, os amantes se vêem embriagados pela “poção mágica” e nada mais importa.
O ideal romântico é exatamente esse, buscamos no outro ser humano o verdadeiro sentido da vida, vivemos na ânsia e na expectativa de encontrar um relacionamento amoroso para suprir toda a nossa angústia e resolver todos os nossos problemas, atribuímos ao relacionamento a tarefa de apagar todo o amargo da nossa vivência. Queremos provar da poção para conhecer o êxtase, a mágica do amor, queremos fugir da realidade e viver apenas deste frenesi. Não seria essa a proposta do escapismo romântico?
Podemos dizer que o amor romântico não só é uma forma de amor como também uma manifestação comportamental inconsciente de idéias automaticamente implantadas e dominantes, como expectativas, exigências, crenças e idealizações. Sem perceber, predeterminamos e pré-conceituamos como deve ser um relacionamento amoroso, o que devemos sentir, como a outra pessoa deve agir e até o que ganharemos com isso, o que leva a uma cobrança constante e inconsciente de que a pessoa amada continue a suprir estas expectativas e a proporcionar a sensação de plenitude e fascínio que o fenômeno psicológico da paixão desencadeia.
O resultado disso tudo é a frustração, apesar do “estado de graça” em que nos encontramos, há sempre a sensação de solidão e insatisfação, muitas vezes o relacionamento torna-se monótono e cansativo, devido à renúncia feita à vida individual para dedicar-se exclusivamente ao amor, é então que vemos tantos relacionamentos ruírem. Atribuímos, então, a culpa ao outro por não ter sido capaz de suprir nossas exigências e não enxergamos nossa própria rigidez.
O ciclo continua quando cada um volta a sua vida anterior, e o sentimento anterior de angústia retorna, e tornam a pensar que só um amor resolveria tudo, e tornam a idealizar um novo relacionamento, e futuramente despejarão essa idealização a uma nova pessoa. Isso explica porque sofremos tanto e somos tão infelizes no amor, porque amamos um amor romântico, destrutivo em sua própria essência, insalubre. Sofrer não é amar demais, amar não significa sofrer, e um amor saudável também não significa um amor frio e distante, os próprios Orientais tratam o amor com muita cordialidade e devoção e uma estabilidade que desconhecemos, acontece que a visão que têm difere da nossa, não é uma visão romântica, não há expectativas e exigências que ultrapassam a realidade, nem a dependência extrema do outro que cultivamos aqui, não há a renúncia à individualidade e ao “eu” para serem substituídos pelo “nós”.
O amor romântico é um potencial vilão em pele de cordeiro, sua imagem popular e histórica de intrépido cavalheiro enche os olhos da nossa sociedade carente de amor, nos deixamos conquistar por suas trovas e rimas e sua extrema perfeição, tornamo-nos príncipes e princesas, com seus cavalos e coroas. E, de repente, como em todo mito romântico, nos vemos em plena tragédia grega, avassalados pelo próprio amor, que de cavalheiro não tinha nada, não se vê nem príncipe nem princesa, só ruínas.
O amor real não é devastador nem violento, é sutil, é calmo, é manso; não traz euforia nem histeria, traz remanso. O amor é pacífico e silencioso, não pode nunca ser uma tragédia. O que você chama de amor não pode, jamais, estar confinado a uma pessoa, nem pode remeter a qualquer lugar fora da realidade; o que você chama de amor não pode ser escravo de exigências e expectativas da inconsciência, ele deve ser consciente e lúcido; o que você chama de amor não pode anular o seu ser, o amor é a maior inspiração para o auto-conhecimento e desenvolvimento individual; o que você chama de amor não pode estar impregnado de projeções surreais, o amor é realismo, não é mitológico. Se você escapa de si, do seu eu e da sua realidade para viver só o amor, você apenas está se escondendo atrás de uma outra pessoa para suprir ideais românticos.

“É hora de substituir o ideal romântico do amor que basta em si mesmo (por isso não dura) por uma relação que traga crescimento individual.” Flávio Gikovate.

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Me desculpem o tamanho do texto, mas é um assunto que venho ruminando há tempos, ficou difícil resumir.
Aqui embaixo eu queria fazer um link diretamente nas matérias mas o wordpress está de mau humor, então fica só o site e os nomes mesmo, sem link ;/

Referências:

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7 respostas para Amor e mito.

  1. Erica Gaião disse:

    Aline, meu anjo!

    AMEI a sua análise sobre o amor. O que acontece na nossa sociedade é que os conceitos mais aceitáveis para as massas, são os mais pulverizados e, sem dúvida alguma, têm um alcance maior. São mais fáceis de serem apreendidos. O amor maduro, racional, concebido sob o prisma analítico é bem assim, como você descreveu: Não pode se sobrepor ao sujeito e, tampouco ser utilizado como moeda de troca. Também não podemos responsabilizar o outro pelos nossos desejos, utilizando o amor como instrumento; como meio. NÃO! Amar é, sobretudo, amar a si mesmo e respeitar o outro enquanto sujeito. Mas quem consegue? Vejo isso na blogosfera mesmo: Qual o tema mais explorado? O amor romântico. Quem escreve sobre o amor romântico tem um alcance maior, sempre. E é isso que todo mundo quer no final: o amor ideal baseado no conceito de amor romântico. Quando o amor é respeito, cordialidade; quando não existe dor, drama, confusão; quando tudo é suave o conceito de amor se transforma em hábito. Ele perde a sua identidade e passa a ser compreendido como qualquer outra coisa, menos amor. Dizem assim: Não há amor, ficou apenas a amizade, o respeito, o carinho, virou hábito; a relação esfriou. Já ouviu isso? Eu já! E não aprendi ainda a separar o joio do trigo e, quando o assunto é amor, misturo tudo: paixão, romantismo, dor, saudade, cobranças e responsabilidades mútuas. Bem assim… Ainda não aprendi a desencaixar as coisas, mas um dia eu chego lá.

    Mais um post inteligente! Amo isso… Estou adorando descobrir mais uma modalidade nesse seu gigantesco talento para a escrita.

    Beijos, amiga!

    • Obsoleta disse:

      Amiga querida!

      Sempre muito bom ver um comentário seu por aqui!
      Concordo com você, o amor romântico é, sem dúvida alguma, muito mais popular e muito mais explorado. Passei a racionalizar o assunto a partir da blogosfera mesmo, comecei a achar a idéia de amor romântico cansativa e repetitiva, em todo lugar que ia, lá estava ele! Mas o que me preocupa nisso é que, parece-me que a maioria das pessoas gostam desse tipo de visão, há quem diga que amor sem sofrimento não é amor (já ouviu isso também?), há quem considere único e soberano o amor avassalador, que chega e nos vira do avesso. As pessoas acham que o amor maduro não vale a pena! Acham-no sem graça, como você mesma disse, às vezes as pessoas nem o reconhecem, deixam-no passar, ir embora… Porque querem a histeria! Elas exibem suas feridas e cicatrizes como brazões.
      Eu não consigo mais ver as coisas assim… Não sei se, na prática, me sairia tão bem, mas pelo menos na teoria já não me cabe o ideal do amor romântico, e já acho um progresso e tanto! rs!

      Obrigada mais uma vez pela visita e pelo carinho! Que bom que tem gostado dos novos textos, vida de universitária tem lá suas vantagens! rs!

      Beijo grande!

  2. Vanessa Cony disse:

    Aline,seu amadurecimento vem me surpreendendo a cada dia.
    Bom você explorar esse assunto,me faz reflexionar…Eu,por exemplo ,carrego comigo muito desse amor romântico.Sou repetitiva até.Mas acredito muito que falamos ou melhor escrevemos sobre aquilo que nosso coração está cheio.
    Toda essa racionalidade a cerca do amor é compreensível e aceitável porém quando estamos no ¨olho do furacão¨nossos sentidos nos enganam,a racionalidade¨ emburrece¨ e perdemos o prumo das coisas.É difícil demais…A cabeça diz mas escutamos a voz do coração.
    Sem dúvida,nós mulheres principalmente,somos condicionadas a amar desse jeito ¨bobo¨,antiquado e incompatível com a realidade,mas é assim desde que o mundo é mundo.Não se trata de conformismo e sim de uma certa impotência diante do sentimento que costuma bagunçar até mesmo os mais inteligentes.
    Gostei muito quando disse:¨O amor real não é devastador nem violento, é sutil, é calmo, é manso; não traz euforia nem histeria, traz remanso.¨
    Já fui muito confundida e incompreendida por pensar exatamente como suas palavras.Hoje eu entendo melhor os meus próprios sentimentos e sei exatamente como desejo oferecê-lo.Do meu jeito.
    Mais uma vez te parabenizo.Gostoso demais tudo que escreve,sua pluralidade é muito bacana.Talento!!!
    Beijo no seu coração.

    • Obsoleta disse:

      Fico feliz que esteja gostando dos textos também, Vanessa!
      A leitura traz isso de bom, maturidade.

      Eu compreendo o que disse. Eu também sempre carreguei muito do amor romântico comigo, também já fui muito repetitiva… Mas isso me incomodou, eu mesma me vi cansada dessa visão e dessa condição.
      Como disse ali em cima pra Érica, mudei a minha visão e concepção do amor, mas isso na teoria, na prática, claro, é sempre mais difícil… Não sei dizer se conseguiria projetar essa postura para a prática, mas suspeito que já saberia por onde começar, ao menos… É uma questão de policiar-se e manter-se lúcido.
      Acho que tanto pro homem quanto pra mulher, essa visão de amor romântico é um questão histórico-cultural, somos todos ensinados dessa maneira e acabamos acreditando que esse é o único e verdadeiro modo de amor, como você disse, acreditamos que é assim desde que o mundo é mundo. Mas se pararmos pra pensar, não é… Existem muitas outras coisas a respeito do amor que podemos considerar e aprender, como eu disse no texto, com os próprios Orientais, por exemplo…
      Vale a pena sempre tentar, senão o furacão nos engole por inteiro…

      Beijo grandee!

  3. Marinha disse:

    Aline, tua reflexão é tão pertinente, tão carregada de autoanálise e observação, que postei (com os devidos créditos) um fragmento de teu texto lá no blog.
    Acredito que esse post sirva de auxílio para muitos, que desesperam-se frente a esse sentimento que, devido a carga de conceitos pré-concebidos, entristece mais do que alegra, cegando ao invés de proporcionar luz.
    Bjo, querida.

  4. Lúcia Alves disse:

    Esplêndido! Uma analise perfeita e que com certeza fará muitas pessoas refletirem sobre o amor que sentem. Eu serei uma delas.

    Beijos no coração…

  5. Fernando disse:

    Muito bom… (daquele cara chato que aominvés de comentar apenas balança a cabeça e faz parecer tarefa de escola bem feitinha)

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