Crônica da desilusão.

Meia taça de vinho tinto, a sacada e a Lua; vinham sendo sua companhia noturna já fazia tempo. O notebook na mesinha do jardim, versos inacabados abertos; um hobbie desleixado. É que a noite sempre a inspirava…
Agora mesmo pensava em prosa sobre sua vida, sobre si mesma. A brisa noturna beijou-lhe a face, bagunçou seus cabelos e dançou em seu babydoll; ela fechou os olhos e sorriu. Nunca imaginou que poderia sentir-se tão bem novamente, tanto se fez libertar dentro dela… Era como se sentia, liberta.
Não pertencia a ninguém, nem pertenciam a ela, não pertencia a lugar algum, a nada. Pertencia a si mesma e isso bastava tanto…
Sentia-se tão feliz quando colocava suas músicas preferidas e ficava até altas horas observando o luar, sentia-se tão orgulhosa a cada rolha que sacava sozinha, a cada texto que redigia antes de dormir, sentia-se tão serena quando atravessava longas horas com seu violão, sentia-se tão confiante quando colocava seu melhor vestido para sair sozinha. Sentia-se tão completa.
Talvez ela tenha se despido das ilusões da vida, das ilusões de menina, adolescente… Talvez tenha crescido. Ou talvez tenha deixado de ser tão velha, aprendido a enxergar as coisas com mais leveza e serenidade, com olhos da realidade e simplicidade. Não esperava mais que a vida fosse uma comédia romântica, nem esperava o romance, não esperava mais nada; e aí estava toda a graça.
Não esperar nada permitia que se encantasse com todo o presente, no lugar do futuro. Não esperar nada permite que tudo seja inesperado e surpreendente.
No fim das contas ela descobriu que desilusão nunca foi uma tragédia, trágico é viver iludido; que temer uma desilusão é como temer a verdade. E ela sempre foi a favor da verdade.
Descobriu que a desilusão libertou sua alma, a fez florescer; conhecer melhor sobre si mesma e sobre as pessoas, fez com que valorizasse o presente, o aqui e o agora e, sobretudo, fez com que se valorizasse.
Desiludir-se fez com que se livrasse de fantasias de amores perfeitos e príncipes encantados, contos de fadas e felizes para sempre. Fez com que o medo da solidão fosse embora, e o impossível ser feliz sozinho também.
Ela descobriu que quem não é feliz sozinho jamais saberá ser feliz a dois, e que para ser dois é preciso antes ser um. Sorrindo ali com a taça vazia nas mãos, ela agora sabe que viver não é só buscar um novo amor, que isso é tão utópico quanto o Romantismo.
Há quem diga que não se morre de amor, mas ainda assim, vive em função disso, não sabe ficar sem alguém para ocupar a mente ou preencher a alma. Ela diz que isso talvez nem seja amor, talvez seja medo de se encarar, fugir de si mesmo; iludir-se.
Sentia-se tão lúcida agora que ao pensar no amor ele lhe pareceu teórico, poético, literal… E ela tinha tanta sede de vida, de ação! Talvez o único amor de que realmente precisasse agora era o amor próprio, e esse ela aprendera cultivar. No mais, não queria amor, não queria amar; ela queria mais!
Entre sofrer e amar ela escolheu simplesmente viver. E viveu; fez da desilusão sua libertação e aprendeu que, quando se liberta, a vida flui, as coisas andam, e tudo passa a dar certo. É a engrenagem da vida, a asa ritmada, como disse Cecília.
Aquela mulher na sacada que agora redige seus próprios pensamentos, tem novos propósitos, traz muito mais em seu peito do que um mero coração partido. Juntara os cacos, reconstruíra seu eu. Aquela mulher, ela não tem mais ilusões, nem protótipos, ela vive, ela é real. Aquela mulher, ela existe… E sou eu.

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Todos dizem “sofri uma desilusão”. Eu não, eu não sofri a desilusão, regozijei-a.
O que faz sofrer é a ilusão, o fim dela deveria ser um alívio.
Questão de sensatez.
Por hoje é só.

 

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6 respostas para Crônica da desilusão.

  1. Vanessa Cony disse:

    Querida Aline.Que bom ler suas belas palavras.Bom perceber que provem de uma alma verdadeiramente liberta.
    É o princípio de um novo tempo onde o amor irá se manifestar em toda a sua plenitude,pois quando ele parte de nós mesmas ,aí sim enobrece e carrega com ele toda a sua grandeza.Porque ele é enorme,não prende,nem faz sofrer.O amor é libertador!
    Falei sobre isso no último post.Laços coloridos te envolvam e façam da sua vida um lindo presente de vc e pra vc mesma.Beijo ,linda menina.
    Vanessa

  2. Evelyse disse:

    A Erba é foda…

    cada dia melhor…cada dia mais sã 😉

    T amo Erbinha hauahua

  3. Querida Aline!

    Que bela forma de inciar o ano. Que bela forma de recomeçar! Amar a si mesmo é o primeiro pressuposto do amor… Ana Jácomo escreveu um texto magnífico sobre sentir-se confortável na própria pele. E esse é o caminho… Sentir-se confortável em si mesmo é amar-se com toda a intensidade. É, sobretudo, respeitar-se. E respeitar-se significa conhecer os seus próprios limites e delimitar o espaço do outro na sua vida; significa viver os sentimentos com verdade -os bons e os ruins; porque tudo precisa do seu contrário, lembra? Isso faz com que tenhamos uma visão real dos acontecimentos; permite os fluxo dos sentimentos e alivia o coração, porque o coração sufocado dói.

    Lindo texto! Com um belo significado pessoal.

    Felicidades!

    Bjs. carinhosos,

    Erica

  4. Fernando disse:

    Tah virando hominho eeeiinn xDDD Finalmente deixando a bixisse de lado pra ser alguem na vida. Bem vinda à borda da humanidade, estamos todos tentando passar pro lá, mas dizem que só uma mutação pra ajudar. xD

    Achei esse texto um tanto quanto diferenciado dos outros ainda sem perder esse assunto de auto-desenvolvimento pessoal que eu não gosto muito. Sim eh egoísmo da minha humanidade mas não posso ser hipócrita né, devo assumir meus defeitos.

    Vê se escreve sobre algo MUITO alegre feliz e bobo na próxima, a melancolia tá me matando. xD

  5. Felicidade Clandestina disse:

    Aline,

    muito obrigada pela doce visita e pelo carinho 🙂

    estou voltando… sim, aos poucos 🙂

  6. Kenia Cris disse:

    Excelente texto! A verdade é essa mesma, sofre desilusão quem escolhe por fazer dela o fim, ao invés de uma chance para um recomeço.

    Beijoca mocinha. =*

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