Crônica do desencontro.

E depois de tanto tempo, depois de tanto insistir, depois de tanto, estamos os dois aqui neste instante, frente a frente.
Você, com a mesma beleza desajeitada de sempre, posso adivinhar quanto tempo passou escolhendo a roupa e arrumando o cabelo e quantas vezes se olhou no espelho do guarda roupas antes de sair. E eu, bem, eu sempre perfeccionista, tenho certeza que sabe o quanto pensei em cada detalhe, minuciosamente, desde a roupa que eu sei que você gosta, até o perfume que preferia. Lembrei-me num instante das quantas vezes fizemos esse ritual juntos antes de sair. Era uma briga pelo espelho… Acho que sempre fomos um pouco narcisistas! Essa lembrança acabou de me abrir um sorriso, que aproveitei para te cumprimentar.
Com um beijo na bochecha senti o perfume de antes, num relance meus olhos encontraram sua orelha, um arrepio subiu minha espinha, junto com um desejo insano de mordê-la. Dispersei o delírio e nos sentamos.
Incrível como posso prever seus movimentos e ações, tinha certeza que ia me perguntar se estava tudo bem e logo em seguida puxaria o cardápio, exatamente como fez agora. Respondendo com palavras simples, te analiso, sinto seu nervosismo, sinto sua perna balançar debaixo da mesa e seus olhos estão fixos no cardápio, não olhou ainda pra mim. A quem você acha que engana? É que te conheço como a palma da mão…
A conversa aos poucos se descontrai, quanta pressa você tem em me contar sua felicidade, chego até a duvidar de leve, mas acho engraçado e participo do jogo. Sem perceber estamos contando festas, shows, porres, como velhos amigos que éramos, mas tudo isso me parece uma desculpa para não falar de nós. Tudo bem, eu nem quero mesmo falar de nós, isso estragaria tudo. Ao contrário de antes, hoje eu acho um desperdício discutir relação, ainda mais quando ela nem existe mais.
Prefiro observar o teu sorriso e teus gestos apressados, nossa, como você mexe as mãos enquanto fala! Quase uma coreografia! Seu riso gargalhado, sem pudor, sempre me faz rir também, e que saudades disso! Sem contar esse brilho nos teus olhos apertados, você sempre traz essa atmosfera gostosa, sua simpatia cativa.
Será que ele percebe isso tudo quando está contigo? Acho tão improvável… Quero dizer, construímos essa intimidade em tantos anos, te estudei tanto que tenho certeza que ele não te conhece ou admira como eu. Ele não sabe esses detalhes, nem saberia depois de tanto tempo, como eu continuo sabendo.
Vejo que seus cabelos estão mais escuros e menos ondulados, continua passando aquele produto, como será que você faz isso sem minha ajuda? Deve fazer menos sujeira do que eu, nunca levei jeito pra essas coisas, suas mãos sempre tiveram mais tato, você dizia que eu não tinha coordenação.
E agora te vendo assim, tão diferente e igual ao mesmo tempo, vejo que aparentemente minha ausência não faz grande diferença, eu sei disso. Pelo menos, não no que diz respeito a superfícies. Quero dizer, te ajudar a arrumar o cabelo e escolher as roupas nunca fez diferença, porque sem mim você continua se vestindo bem e seu cabelo está arrumado.
Mas agora que o assunto acabou e seu olhar vidrou por um instante em mim, eu sei no que está pensando… Que ele não te ama, ele só te quer, só te quis esse tempo todo, mas amor, esse amor, ah não. No fundo você sabe disso, você sabe o quanto estou a te analisar desde que chegamos, o quanto degusto cada detalhe seu com tamanha significância, coisa que ele não faz. Ele não traga suas palavras como se elas fossem um sopro de vida, nem decifra cada pequena coisa, como se fossem chaves de um grande mistério, que é você.
Eu sei que não falta adrenalina em sua vida, sei que nunca está só, você sempre faz questão de deixar claro suas farras, seus risos, e seu dia-a-dia repleto de aventuras, ao contrário de antes. Eu sei, sei que na sua vida não falta sexo, tesão, pele, eu sei e pela primeira vez isso não me desperta ciúme.
Mas vejo nos teus olhos agora que falta algo, falta muito! Falta o colo nos dias ruins, falta aquele “eu te amo” perdido no escuro, falta dormir de conchinha, falta acordar com milhões de beijos, faltam as mãos dadas, a briga pelo espelho, faltam os banhos demorados, falta ter com quem voltar pra casa, falta ter com quem ficar em casa, falta cumplicidade, simplicidade, falta sentimento, falta amor. Aquele amor incondicional. Aquele amor que ele não é capaz de te dar.
Seu olhar baixou para o copo agora, um olhar pensativo, parece ter ouvido meus próprios pensamentos. Queria poder te abraçar, te tomar em meus braços e mostrar o que realmente é amor, mas eu não posso. Essa batalha é sua, você sabe que eu te amo, e sabe que ele não te ama, não há nada que eu possa fazer.
Mais um gole de meu drink e me despeço com outro beijo no rosto, e outro desejo de prolongá-lo por todo o seu corpo. Eu preciso ir, não posso ficar porque sou capaz de quebrar todas as suas barreiras sem pedir licença, violentar sua decisão. E eu não quero ser igual a ele.
Viro as costas e intimamente desejo que me puxe de volta e me peça pra ficar, pra sempre… Mas eu sei que não vai acontecer, você fica na mesa encarando o copo, encarando seus medos, seu dilema e sua indecisão. Enquanto eu volto pra casa, levando comigo o que te falta.
Tanta vida desencontrada.

…………………………………………………………………………………………………………………………………

Invertendo os gêrenos dos personagens. Uma crônica, depois de tantos textos. Grande, por sinal.
E é só.

Obs: Não preciso repetir que minhas crônicas são fictícias né? Ah tá.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Crônica do desencontro.

  1. Vanessa Cony disse:

    Aline,quando existe amor o tempo se torna obsoleto.Nada significa.Quando existe amor nossos sentidos se apuram e então sabemos exatamente o que acontece do outro lado…
    Se há amor,o tempo passará e ele…Ele jamais deixará de existir.
    Beijo no coração.

  2. Aline,

    Às vezes é no desencontro que conhecemos o verdadeiro significado do amor. O tempo é só um pequeno detalhe. Importante é permanecer na vida carregando a certeza de que o nosso caminho é nosso, e nada nem ninguém é capaz de nos desviar dele por muito tempo. Quando isso acontece, a própria vida se encarrega de corrigir os erros de percurso. Falo isso com propriedade, porque em um desses desencontros, a vida me presenteou com outra vida.

    Não sei se ando tão inspirada… Às vezes as palavras me faltam, mas como disse no meu último post, escrevo por instinto. E, conceitualmente, instinto é aquilo que é verdadeiramente nosso. Aquilo que vem lá do fundo…

    OBS: A vida tem me mostrado que eu realmente fui escolhida pelas mãos de Deus para conceber um anjo. E esse amor que sinto por ela é o único que nem os meus instintos primários conseguem explicar. Já tentei várias vezes escrever um texto para ela e não consigo. As minhas palavras não conseguem alcançar…

    Adoro o seu cantinho!

    Bjs. carinhosos,

    Erica

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s