Retrato falado.

Eu sei cada detalhe seu. Cada linha, cada curva, como ninguém.
Conheço todos os seus sorrisos e olhares:
Conheço o olhar de medo, em que franze o cenho e surgem três marcas de expressão suaves em sua testa;
Conheço o olhar de felicidade, em que seus olhos se contraem formando pequenas preguinhas nos cantos;
Conheço o olhar apaixonado, em que as sombrancelhas erguem-se levemente e as retinas cintilam;
Tem também o olhar de tristeza, sempre acompanhado de olheiras e pálpebras baixas;
Conheço seu sorriso de mentirinha, que se abre um pouco menos da metade da linha retilínea;
Conheço seu sorriso sincero, que se escancara fazendo as bochechas relutarem para caber na face;
Conheço o seu sorriso de disfarce, que é quando seus olhos não sorriem junto – eu conheço bem esse sorriso “que eu já nem preciso…”
Eu sei quando está nervoso ou ansioso, fala com pressa e ri em demasia.
Sei quando está bravo, fala pouco e usa poucas sílabas.
Sei quando está triste, não fala nada e o silêncio tem cheiro de lágrima.
Eu sei quando está magoado, fala pelo avesso das palavras.
Eu sei quando está com raiva, corre para longe de todos e pra dentro de si.
Sei também quando está feliz, irradia pelos poros, todo o seu ser diz.
Eu sei quando está decepcionado, seu olhar foge, se perde, se cala – eu sei, mas não queria. E quando isso acontece você se fere e se disfarça, para que ninguém nunca saiba, mas eu sei.
Sei também que é capaz de abrir mão do que mais quer, por orgulho. Sei que constrói muros ao seu redor não por medo, mas por que deseja que tenham a audácia de atravessá-los. Eu sei, sei que quer que reconheçam seu valor, que façam por merecê-lo. E que muitas vezes deixei de fazê-lo.
Sei que às vezes teus próprios muros se fazem cativeiro. Eu sei, sei que sua dor e suas lágrimas estarão sempre ocultas, no travesseiro ou na água do chuveiro.
Você talvez nunca saiba o quanto eu sei cada pequena coisa, e o quanto cada pequena coisa te remete. E mesmo errando tanto, eu talvez seja sempre quem mais acerte.

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Texto xucro, sem pedigree, sem pé nem cabeça, sem rima, sem rumo. Ideias rústicas que surgem em desordem, palavras silvestres, indomáveis. Enfim, diamante bruto.

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2 respostas para Retrato falado.

  1. Um belo diamante bruto, por sinal! Me remeteu a minha própria vida, porque eu também sei… Conheço de frente e verso e tenho um reflexo diário, do meu lado, me chamando de mãe.

    Bjs. carinhosos

  2. Werther disse:

    Lindo Aline. Você é muito talentosa amiga, não conhecia esse seu lado. Parabéns pelo texto… me identifiquei muito com ele tbm… beijos

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