Carta errante.

Bauru, hoje.

P.,

Sei que não deveria, desde o começo, eu não deveria. Mas agora já é tão tarde…
Preciso dizer o que não posso falar, e as palavras sairão pré-maturas, um protesto sem causa. Não sei como preencher o silêncio que sobra, nem o silêncio que falta.
Lembra o tempo em que havia tanto a dizer, calados? Hoje a fala parece se perder antes de te encontrar. Morre antes de nascer qualquer esboço de prosa. Fica a falta, no lugar.
O silêncio errado na hora errada. O silêncio certo, sem hora certa. Onde estamos nós, desencontramos? Pra onde vão os nós que desatamos?  Flutuam num mar de incertezas…
E ficamos os dois num jogo de azar, juntando meias palavras e meias verdades, qualquer migalha que possa trazer algum significado para o nosso quebra-cabeça indireto, cheio de suposições e talvez.
Te observo e te acompanho de tão longe, visto suas palavras como se fossem feitas para mim, encaixo aqui e ali, vou me enquadrando ou me excluindo, como se fizesse parte de seu quebra-cabeça, mas sem querer, de fato, descobrir de verdade. Do outro lado, sei que também experimenta do mesmo veneno, sei que tenta caber em tudo o que digo, que procura resquícios seus em tudo o que faço e que, às vezes, se pergunta se há, realmente.
E se te dou algum sinal, logo se esquiva em defesa; e quando o sinal me é dado, recuo, na incerteza. Um esconde-esconde maçante.
Ah, e pensar que nos conhecíamos tão bem! Que podíamos quase prever gestos e atitudes… Hoje desconhecemo-nos, como um campo minado em que cada passo desmedido pode ser fatal. E sua guarda sempre armada, os muros tão altos que construiu contra -quem sabe- si mesmo. E meus dois pés atrás. Ah, estamos tão próximos em nosso medo! Tão unidos pela incerteza…
E quantas vezes o que nos unia era tão mais forte? Penso, às vezes, se não julgamos mais forte do que realmente o era. E nada mais é, agora… Pra onde vão os sonhos que deixamos de realizar? E toda a vida que não vivemos? Difícil é encarar como ponto final o que termina em reticências.
E quantos nãos você me disse antes do adeus? Ainda lembro da descrença em seu olhar, do espaço dentro do abraço, da distância, do frio… Estar longe sem estar. Você se foi muito antes de partir. Talvez não quisesse mesmo ficar.
Sua vontade não foi tão forte como costumava ser… Pra onde foi? Pra onde foi tudo o que era nosso? Pra onde vão todos os “nós” que se desfazem?
Eu queria ter as palavras certas, mas pensar em você me emudece a alma… O que quero verdadeiramente dizer prosseguirá em silêncio, como essa carta que não chegará a teu conhecimento.
Ah, mas como queria que soubesses! Queria que pudesses sentir tudo o que não posso dizer. Se fosse possível mensurar, eu o faria! Mas nem prosa nem poesia são capazes de sustentar o que vai a meu íntimo. E estas linhas são apenas divagações diante do derradeiro sentimento.
Tanto deixamos de viver, de dizer, de fazer, que hoje o que nos resta é o que faltou. Tanto nos impedimos e não permitimos, tanto complicamos e adiamos que acabamos por nos anular. E agora parece tão tarde…
Subscrevo-me para acalentar a ansiedade, para aliviar o peso de um coração vazio. Mas, sobretudo, para impedir que morra em mim o sentido.
Escrevo para não morrer outra vez, ou renascer, talvez…
Você foi a aurora mais bela dentro de mim… O Sol e o verão. Mas hoje, ah, hoje vislumbro o crepúsculo, e o que me resta é escuridão.
Levo teus olhos comigo, teu sorriso e a nossa canção…

Com todo o amor que deixamos para trás,

Eu.

P.S. Você sabe…

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Sabe aquela carta que a gente escreve pra nunca mandar? Que a gente acaba escrevendo mais para si mesmo? Ei-la, a carta errante. Existem tantas delas dentro de mim…
Essa sim é uma produção totalmente pessoal, sem ficção.

Aliás, falando nisso, quero deixar claro -outra vez- que minhas crônicas são construções líricas em que, embora o sentido seja real, os personagens e os fatos não são. E elas não significam, necessariamente, o que eu sinto e penso deveras. Só pra deixar claro mesmo.

E esse é o último post da semana, pois, até então, é o que tenho a dizer. Estarei aguardando, no gerúndio, a inspiração…

 

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Uma resposta para Carta errante.

  1. Oi! Olha eu aqui de novo!

    Do lado de dentro a gente escreve tantas cartas… Do lado de dentro temos longos diálogos – que na verdade são monólogos – onde dizemos coisas tantas, com uma coragem majestosa. Mas quando de fato temos a oportunidade de dizer a parte que interessa, esquecemos!

    Adorei a sua carta! Linda, real e verdadeira. Espero que você consiga destar esse nó e ficar na confortável trama do laço (plagiando Ana Jácomo).

    Também adoro o seu cantinho!!! E suas visitas sempre carinhosas, também!
    Bjks e até breve

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