Crônica do desamor (Parte II).

Desmoronei. Tudo, dentro e fora de mim, desmoronou.  O alicerce era fraco demais, sempre fora. Ainda assim, revolvo todos os dias a meus próprios escombros, incapaz que sou de abandonar, de renunciar. Eu não sei partir.
Apeguei-me tanto aos restos mortais do que outrora chamei de felicidade, que simplesmente me acostumei a viver ali, fiz do limbo paraíso. E destruí qualquer céu ainda existente em mim. Sobrou o chão. Os dois pés no chão, depois os joelhos e o resto.
E despedacei você mil vezes, matei você mil vezes. Todas as vezes que sorriu sem mim. Mas você sempre esteve tão morto que jamais saberia…
Perdi-me ao perdê-lo. Não por ter lhe pertencido, mas por nunca ter pertencido a mim mesma. Eu nunca pude culpá-lo, e isso fazia de mim a única culpada. No fundo, eu sempre soube, desde o começo. Por amá-lo tão desmedidamente, por obrigá-lo a suportar esse peso tão maior do que poderia, a culpa sempre foi toda minha, demasiadamente.
Passei, então, a me punir por tão nefasto crime, a insistência num amor morto que se torna desamor. E desamei tanto, a tudo, a todos, e a mim.
Foi quando desviei meu próprio caminho, puxei meu próprio tapete, me traí. Fui contra meus próprios princípios, minha própria natureza, meu próprio eu. Aquela que me olhou do espelho pela manhã, não era eu, nunca fora. Tampouco aquela que andava de boate em boate, marcando desencontros, de boca em boca sugando almas, ferindo sentimentos, alimentando-se de dor alheia, embriagando-se do suor impuro de corpos desconhecidos, despertando desejo de quem não pretendia saciar. Pensando fazer da culpa meu castigo, apunhalei meu coração. Matei-o.
Tornei-me vazia, oca, um monstro de vestido de seda. Colecionadora de corações partidos e de lágrimas solitárias. Paguei sofrimento com sofrimento. A dor com a dor. Olho por olho e dentes sorridentes.
No fim, ali, agachada debaixo do chuveiro, vi o quanto tudo isso se fez tão inútil e insensato. Um passo em falso, ou nem isso, apenas a ameaça de um passo que resultou em outro tropeço.
A maquiagem forte que passei a usar jamais camuflaria o frio do meu olhar, nem o vazio do meu sorriso. E todas aquelas pessoas que nada significavam e que permiti se achegarem, jamais devolveriam o que faltava. Eu nem queria o que faltava. Eu queria a falta.
Naquele instante, desliguei o chuveiro, me levantei e, já com rosto e corpo limpos, me encarei novamente no espelho: olhos negros como a noite, gélidos; cabelos negros pendendo aos ombros e seios, como o véu do portal da morte; lábios rosados pela água quente, como a cor do fruto proibido. Eu não precisava mais fingir, não precisava mais camuflar, toda a verdade estava estampada em mim.
Fiz do desamor minha insígnia, e aprendi a me bastar. Eu não queria mais ninguém, a não ser eu mesma. Me desfiz de todas as pessoas estranhas, e lugares estranhos, e maquiagens. Jamais voltarei a ser quem era antes dele, porque aquela pessoa sucumbiu junto a seus próprios escombros, por não ter sido capaz de partir.
Mas aprendi a lidar com a leveza de minha falta. Tornei-me a própria falta. Faltava tudo, mas principalmente, faltava a culpa. Sorri.
Encontrei o celular mais tarde, uma chamada perdida, uma mensagem: “Saudades…”.  Apaguei.
Aquela era eu, ou quem deveria ser. Aceitei, enfim.

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Eu disse que a segunda parte era a melhor. Fim.

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Uma resposta para Crônica do desamor (Parte II).

  1. Vanessa Cony disse:

    Querida Aline.Li seu texto inúmeras vezes e percebi que faltava um comentário para seu desabafo.
    Acho que faltou coragem…Afinal,interferir nesse momento é muito difícil para quem está de fora.
    Imagino como se sente,acredito que muitos também saibam.De tudo que disse me lembrei de um texto que escrevi:

    ¨…Nossa vida é nossa.Não podemos entregá-la a terceiros.
    Podemos compartilhar,mas entregar seria uma perda.Perda da própria vida.
    Podemos viver com o outro e isso é bom,mas não precisamos do outro para viver. Precisar do outro pode trazer a morte no abandono.
    Só podemos amar quando nosso próprio amor se sustenta em nós e não no outro.
    Então esse amor melhora nossa vida mas não sustenta nossa vida.
    Nossas vigas são nossas e de mais ninguém.E se por ventura essa viga compartilhada for retirada,arrancada, não iremos desabar.Continuaremos de pé sustentadas por nós mesmas. …¨
    Sua juventude irá lhe proporcionar muitas descobertas e essa é uma delas.
    Beijo no seu lindo coração.

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