Crônica do desamor (Parte I).

Ouvi o celular tocando ao fundo, parecia distante, em algum lugar por ali. Eu queria atender, mas não conseguia encontrar, tudo estava embaçado e rodava e rodava e… Eu caí, despenquei eternamente do que parecia um abismo interminável, até acordar embolada no edredom, de cara no chão. Minha cabeça inteira doía demais, com certeza havia fraturado o crânio e morreria em instantes. Não seria má ideia…
Fiquei ali por algum tempo esperando que a morte chegasse, mas aos poucos a dor foi diminuindo e percebi que nada estava quebrado, de fato. Ou pelo menos, nada que pudesse mensurar.
Levantei devagar e senti a têmpora latejar, a visão escureceu por alguns instantes, me apoiei ao guarda-roupa, depois me dirigi ao banheiro meio zonza e olhos semi-abertos. Tateei a porta e depois a pia, abri a torneira e molhei o rosto, finalmente consegui despertar. Quando levantei os olhos, me deparei com o espelho, que pareceu tão ingrato por estar ali, naquela hora inoportuna. Eu tinha a aparência exata de uma prostituta barata (isso me envergonhou um pouco, verdade), a maquiagem borrada e escorrida, o cabelo despenteado, e agora aquele hematoma indiscreto na testa, e o pior é que a coisa toda só piorava do pescoço pra baixo! Estava com o corpete despido até a cintura, a lingerie preta à mostra, calça jeans desabotoada, os pés sujos de sei lá o que… Senti um gosto amargo de ressaca na boca, deveria estar com o hálito podre, nem sabia há quantas horas estava dormindo, nem que horas eram, não sabia nem como havia voltado pra casa. Meu cabelo cheirava à cerveja e cigarro e tinha alguma coisa pastosa e azeda, preferi não tentar adivinhar o que poderia ser. Muni-me de escova e pasta de dente e fui para o chuveiro, só um banho pra exorcizar aquele corpo que não parecia meu.
Depois da higienização completa e mais do que necessitada, deixei-me escorregar até o chão, a água quente era reconfortante, parecia amenizar a dor na consciência. E quem era eu pra falar em consciência? Eu mal lembrava aonde tinha estado na noite passada… E várias outras noites passadas. Eu nem sabia onde estava eu mesma, mesmo estando bem ali.
Esse pensamento me atingiu como uma faca no peito e, se eu ainda tivesse um coração, ele teria sido dilacerado. Não sabia mesmo onde estava aquela que costumava chamar de “eu”, e isso doía, eu não sabia por que doía, nem onde doía, mas a dor toda me consumiu. Chorei. Era o momento da higienização interior.
Impossível distinguir quanto tempo fiquei ali, agachada no Box, encolhida num canto, chorando sob a água do chuveiro, como em uma cena de novela das oito. Pareceu uma eternidade…
Aliás, os últimos meses pareceram uma eternidade, sentia como se tivesse envelhecido 10 anos, talvez quem olhasse pra mim naquela manhã também sentisse o mesmo. O fato é que eu não sabia mais o que estava fazendo, de repente tudo perdera o sentido e eu passei a agir de acordo.
Havia sido demitida do emprego, abandonei a faculdade, minhas economias estavam escorrendo pelo ralo, junto com a maquiagem e todas as outras substâncias que eu trazia das festas, junto com a minha dignidade, talvez… Minha vida não tinha mais nenhuma perspectiva, eu que sempre fui exemplo, esforçada, dedicada, estava lá agora chorando no banheiro com vergonha de mim mesma. Irônico não é? Foi o que eu sempre pensei…
Era irônico o fato de as tragédias melodramáticas acontecerem justo comigo, que sempre busquei fazer tudo direito, de que valeu, afinal? Olhando para mim naquele estado, você diria que não valera de nada. E era também o que eu achava.
Mas todas as tragédias juntas pareciam irrelevantes diante do caos maior que foi perdê-lo, talvez esta tenha sido a tragédia que iniciou toda a reação em cadeia que se sucedeu. Porque é isso o que acontece quando apoiamos todas as nossas forças em uma pessoa, ou em um relacionamento. Quando a pessoa se retira, tudo desmorona.

…………………………………………………………………………………………………………………………………

Essa crônica estava em fase embrionária desde que criei o blog. Não sei o que houve, travou, a ideia não fluía. Mas essa semana consegui concluir e ficou tão grande que precisei dividir em duas partes.
A segunda é a melhor. Aguardem!
Por hoje é só.

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