Obra não-prima.

Tentando esconder os pequenos defeitos, tentando camuflar as pequenas falhas, sempre a cada amanhecer, antes de sair de casa.
E hoje, só hoje, me dei conta de que não sou perfeita, não vou ser perfeita, tampouco. Eu nem quero ser perfeita, ninguém quer, deveras. É a imperfeição a parte mais sublime de nós mesmos.
Percebi o quanto cada mínima incorreção faz parte tão profundamente de mim mesma. Demaquilei-me e encarei o espelho de alma limpa. Olhava para mim uma menina-mulher tão docemente imperfeita, que quase vi em seus olhos o fogo do juízo final.
E me enxerguei, como nunca antes. Vi de tudo o que fui, o que sou e o que deixarei ou não de ser. O mistério tão óbvio se desfez que duvidei um dia ter de fato existido. Estava bem ali, o tempo todo…
A verdade é que nunca quis aceitar meus defeitos tão humanos e mesquinhos, meus medos e inseguranças, vestindo uma armadura tão maior do que eu mesma. Não suportei o peso, nunca suportaria.
O escudo que carreguei com tanto orgulho por todo esse tempo, nunca foi necessário, nunca houve do que me defender tão bravamente, a não ser de mim mesma. Mas porque, afinal? Se tudo o que fui, procede em mim! Os defeitos mais insanos são os que dizem quem eu sou, do que é feita a matéria-prima da minha essência. Ninguém é feito só de luz.
Eu tenho trevas em mim! Como a Lua, tão bela e límpida na face que se deixa ver… Mas e o que há por trás? Faz parte dela também.
Não quero mais viver na realidade ilusória, na linha de ataque numa batalha inexistente, vestida de aço, com o coração de carne, que sangra. Eu me rendo! Eu me rendo a mim, aos meus defeitos e aos meus erros, às minhas imperfeições, à minha falta de primor. Não vou mais fugir de mim!
Minha pintura íntima retrata uma obra não-prima tão cativante quanto sua percepção é capaz de sentir. Não me culpe se não encontrou o que busca, muito provavelmente, você apenas não foi capaz de perceber, de contemplar. Como eu mesma não fui, por tanto tempo…
Eu sou tão humana quanto não gostaria de ser, quanto fingi não ser! Tão imperfeita quanto fiz questão de não parecer, e tão comum quanto me deixei iludir pelo contrário.
Tenho medo do novo, da mudança. Tenho medo de trocar o certo pelo duvidoso. Por isso prefiro o passado, e sofro. Me apego demais, e morro. Valorizo o desprezível e desprezo o valoroso. Ignoro os riscos mais óbvios. Não sei lidar com finais. Não sei recomeçar. Tenho medo da solidão. Insisto nos erros até tornar-se burrice. Sou teimosa feito uma criança. Deixo pequenas coisas me abaterem. Sou frágil. Carente. Medrosa. Mesquinha. Insegura. Ignorante. De carne, osso e lágrima, eu sou tão pequena!
Mas, sabe… Perceber isso tudo me faz um tanto bem melhor, bem maior.
Nua e crua, sou feita de sonhos e pesadelos. Bem e mal. Agridoce. Nunca houve uma medida certa. Nem haverá.
Não espere de mim mais do que posso, nem menos do que sou capaz.

…………………………………………………………………………………………………………………………………

Finalmente, uma epifania. E por hoje é só.
O resto, não sei dizer…


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2 respostas para Obra não-prima.

  1. Fernando disse:

    Droga, num tah ruim, num posso fazer comentários degradantes…. vou ter que elogiar… nhaf, tb não vou elogiar… humf….

  2. AMEI! Meio Florbela Espanca, sem medo de expor a alma! PERFEITO! Lembrei-me de um texto da Ana Jácomo sobre estar se sentindo confortável na sua própria pele. Acho que é por aí… Não há nada melhor do que se reconhecer e se aceitar. É o primeiro passo para a felicidade. Ser perfeitinho deve ser muito chato.
    Parabéns por essa belíssima reflexão!

    Bjks e até breve.

    Erica

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