Correnteza.

De Aline Erba

E foi como o percurso de um rio violento…
Você estava sozinho e perdido, eu fui alguém a quem você se agarrou em meio à correnteza, estava apavorada e, por não ter mais ninguém, me agarrei a você também.
Seguimos abraçados pelos declives, amparando um ao outro, sempre juntos a cada dificuldade, enfrentando o frio e a dor, pois o medo dividido subtrai-se. Mas havia uma grande queda d’água logo a frente…
Nossos braços se soltaram, tentamos desesperadamente buscar um ao outro em meio à espuma e à violência da água, mas nossas mãos se perderam, junto a todo o resto…

Acordei à margem do rio e vi você, ao longe, do outro lado.
Nossos olhos se enfrentaram por instantes e então, em silêncio, você partiu devagar.
Fiquei ali, observando até que sua silhueta desaparecesse no horizonte, inspirando a dor e a beleza daquele momento. Não era necessário explicação, ou palavra alguma sequer.
Compreendi que, agora você não precisava mais de mim, e não havia nada que eu pudesse fazer. Conduzimos um ao outro pelo caminho tortuoso, apoiamo-nos, fomos nosso próprio porto seguro em meio ao turbilhão. Mas, depois da tempestade, veio a calmaria e nossa salvaguarda não era mais necessária.
Tudo fora tão verdadeiro e lindo, mas transitório. A verdade é que nós nunca nos pertencemos, apenas fomos companheiros de travessia.
Com lágrimas nos olhos, dei as costas e me forcei a caminhar.
Eu tinha de seguir em frente, tinha de ir… Não fazia a menor idéia de onde, mas precisava continuar…

(21/10/10)

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Eis o texto que diz tudo o que vai aqui dentro neste momento! Sobre a questão do “deixar ir” também dita no post anterior. Como é difícil!!!
Algumas vezes pensamos ser o papel principal na vida de outra pessoa, quando notamos ser apenas coadjuvantes. Pensamos ser o caminho, quando notamos ser apenas o veículo. Pensamos ser o pra sempre, quando notamos ser apenas o por enquanto.

Acontece que, às vezes, algumas pessoas entram em nossas vidas não por opção, mas por falta dela. Como alguém que está perdido e, por acaso, acaba batendo à sua porta em busca de informação.
Quando essas pessoas surgem, nós, que estávamos sozinhos e não esperávamos ninguém, acabamos nos sensibilizando. Oferecemos todo o apoio em troca da companhia inusitada, trocamos experiências com o novo personagem, a afinidade acontece e acaba que, construímos uma história paralela.
O problema é que, a pessoa estava de saída, sempre esteve. Ela só queria uma informação, uma orientação, uma direção… Depois disso, não faz mais sentido continuar ali, ela precisa continuar o seu caminho, o seu enredo.
E o nosso papel (de coadjuvante) é simplesmente deixar que ela se vá, como quem cura o pássaro com a asa machucada e deixa-o voar livre, depois.
Mesmo que, com isso, nós tenhamos de perder nossa própria direção…
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2 respostas para Correnteza.

  1. Que linda percepção acerca da ruptura! Vejo muita generosidade…

    Obrigada pela sua visita… E eu estarei sempre por aqui! Seu universo paralelo está entre os meus favoritos.

    Bjs.

    Erica

  2. Fernando disse:

    Essa é a parte onde odeio ser humano… quando valorizamos demais uma coisa que não existe e acabamos não sabendo lidar com a morte dessa criação que fizemos. Deuses do abstracionismo que estão aprendendo a moldar sonhos. Jovens tolos.

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