Injúrias de Amor.

de Aline Erba.

Enquanto o assistia ser enxotado da minha vida daquela maneira, num último apelo desesperador, amaldiçoei-o dizendo que jamais alguém o amaria como eu. Clichê. Mas tudo parecia mesmo clichê e já não havia tempo para pensar em nada melhor…
Lembro-me bem, ele despejou em troco: “E também não encontrarás ninguém com a intensidade dos meus sentimentos.” Eu ri.
Era mesmo ridículo! Como alguém que crava uma estaca em meu peito pode pronunciar estas palavras? No mínimo, insano.
E eu queria feri-lo por isso! Queria que sentisse a dor que rasgava minha alma! Queria provar que aquele amor era doente e que só agora eu seria feliz de verdade… Queria provar que não valera a pena, que era melhor assim e eu ficaria bem.
Não foi exatamente desta forma, mas fiquei mesmo bem. E realmente foi melhor assim. Mas eu jamais imaginava que nossas ameaças e maldições se cumpririam. Pois bem, cumpriram-se.
Tudo se resumiu em três fases principais: A dor, a ausência e o nada.
A dor foi a mais intensa, estendeu-se por meses que mais pareciam milênios. Não me alimentava mais, nem tomava banho diariamente, desisti de mim mesma por tempo indeterminado. No início, chorava todos os dias, depois passei a sentir como se o organismo não fosse mais capaz de produzir lágrimas e nem de suportar o desgaste do pranto, então passei a chorar a seco, sem lágrimas e sem qualquer sinal de emoção, chorava por dentro enquanto o corpo se estagnava esperando qualquer comando do cérebro inativo.
Mas os sintomas da depressão foram diminuindo, e então a dor passou. Foi então que o cérebro começou a funcionar parcialmente, e então eu me dei conta do fato de a casa estar vazia e não ter ninguém para o jantar. Algo estava faltando, e essa falta era apavorante! Havia um rombo, uma lacuna em meus dias que nada era capaz de preencher. A ausência dele passou a fazer parte de minha vida, como um espírito obsessor, ela estava por toda a parte! Em todos os lugares onde ele deixara de estar… E isso me amedrontava e tirava minhas forças, não me sentia capaz de prosseguir.
Então mudei minha rotina e meus hábitos, passei a evitar qualquer pensamento, lugar, música ou assunto que pudesse lembrar aquele homem e trazer o fantasma de sua ausência para me assombrar. Não foi fácil, mas funcionou.
Passado algum tempo, me dei conta do quanto esse tempo havia passado. Minha vida prosseguiu e eu já não tinha tempo para pensar nele, e quando o fazia, era com certo esforço para recordar seu rosto e os detalhes que outrora eram tão vivos em minha memória. Já não lembrava mais de sua voz ou de seu sorriso, tampouco de seu olhar, aquele que sempre pensei me pertencer… A força do tempo e dos dias arrastou as lembranças e deixou apenas vagos registros de memória, como um arquivo morto, onde se guarda todas as informações que não são utilizadas, apenas por segurança.
Mas, uma única sensação permanecia, aquela sensação estranha e quente que nasce em algum lugar entre o estômago e a espinha. Quando tentava lembrar de nossos momentos sentia que algo dentro de mim despencava, eu não lembrava exatamente de situações vividas, mas conseguia sentir exatamente a mesma sensação de quando as vivi. Era tão bom que eu podia simplesmente passar horas submersa em devaneios apenas para sentir aquela aluvião de sensações quentes me amparando feito um cobertor em plena noite de inverno.
Era reconfortante, até eu perceber que aqueles sentimentos só existiam dentro de mim. Quando me desligava das lembranças e voltava à vida real, não restava nada além de um grande vazio, um grande nada. Não havia nada que me fizesse sentir daquela forma novamente, e admitir isso era doloroso demais. Então passei a buscar o sentimento em outras coisas, outras pessoas. Eu o queria de volta!
Conheci alguns homens, alguns completamente invisíveis para mim, tentaram me fazer feliz, verdade, mas eu não percebi. Outros, um ou dois, foram interessantes, me envolveram e até me fizeram sentir saudades, mas nada além… Não havia aquele aconchego dentro da alma, aquele calorzinho estranho no diafragma. Não havia nada.
E foi então que eu percebi, que a nossa troca de maldições, nossas injúrias haviam se concretizado. Eu não encontraria ninguém que me fizesse sentir o que senti com ele, e nem vice-versa. Simples e devastador.
Jamais teríamos a mesma pureza e inocência daquele amor outra vez. Jamais sentiríamos as mesmas borboletas brincarem em nossos estômagos, todo o encanto havia sido quebrado. Manchamos o casto daquele primeiro amor com nossas lágrimas e calamos todas as nossas juras no silêncio do fim.
Nada nunca mais seria igual aos anos que passamos juntos, às descobertas que fizemos juntos, a tudo o que construímos juntos. Simplesmente porque agora tudo já fora descoberto, e construído e feito.
Daqui pra frente, aquele que chegar encontrará tudo posto em seu lugar e não haverá mais o alvoroço da descoberta. Também encontrará meus dois pés no chão da realidade, sem a fantasia do amor romântico e sem o encanto mágico de um coração sem vícios e cicatrizes. E será assim para ele também.
Aceitar isso foi aceitar que ele seria sempre único. E parte de mim estará com ele para sempre, da mesma forma que mantenho uma parte dele em mim. É estranho, nós nunca mais ficaremos juntos mas, ao mesmo tempo, carregaremos um ao outro em alguma parte visceral de nós mesmos, para sempre.
E a ausência da parte que ele levou, irá latejar em minha alma todos os dias, nada preencherá o vazio que ficou no lugar. Isso não quer dizer que não haverá outros, simplesmente, ninguém trará de volta a parte que falta, pois pertence a ele.
Assim como a parte dele que carrego, é minha por eterno direito.
Essa é a fase do nada, a fase que durará o mesmo tempo infinito da lacuna que ele deixou. E a questão nem é a ausência da pessoa em si, mas sim do que ela representou, do que ela significou e do que isso repercutiu em nós.
Soa romântico, mas eu diria que esta é a última designação a ser utilizada. É extremamente assombroso, agonizante, saber que passaremos a vida tentando reproduzir o que sentimos quando estivemos juntos e, sem sucesso, teremos de aceitar apenas o mais próximo a isso possível.
Desta forma selamos o pacto que fizemos, sem perceber, com nossa troca de injúrias naquele dia derradeiro. Não haverá outra pessoa que traga de volta o que nos foi tirado, nem os sentimentos serão os mesmos, sequer parecidos, simplesmente porque não somos mais os mesmos, faltará eternamente uma parte de ambos.

(29/09/2010)

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É grande mas vale a pena!
Essa crônica eu fiz já faz um tempinho. Gostei bastante. Explica bem uma conclusão a que eu cheguei num dia comum, em uma de minhas introspecções de janela de ônibus… Acredite ou não, eu chego a várias conclusões enquanto ando de ônibus, é quase um mantra.

As primeiras publicações serão bastante pessoais, talvez pelas coisas que me aconteceram, mas não quer dizer que eu seja, de fato, a personagem. Só pra deixar claro. Mas as ideias são minhas, mesmo, sem eu lírico.

Enfim, eu queria fazer um post novo, com um texto novo, talvez uma nova crônica, porque eu tenho muito a dizer nesse momento, mas acho que exatamente por isso não consigo escrever nada. Então, foi esse mesmo…

Por hoje é só. Até breve!

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3 respostas para Injúrias de Amor.

  1. Fernando disse:

    Humanos escrevem parágrafos para falar do que não entendem justamente para parecer que entendem ou que é tão complexo ou difícil que se nem ele entendeu ninguém mais o fará.

    Em três linhas podemos resumir tudo o que o ser humano sente por toda a vida: Felicidade, Ódio e Medo. Os princípios básicos de todos os outros sentimentos e qualquer movimento de vida humana. Engraçado é que são infelizes porque têm medo e não entendem, porque não sabem usar o ódio e porque não conseguem deixar a felicidade acontecer. Mas eles usam 250 linhas para descrever uma fração de um momento simples e estúpido tentando mostrar ao mundo que, não são eles incapacitados ou medrosos, mas batalhadores que sofreram e merecem valor. Pois valorizo o quanto há de espaço vazio em suas capacidades e o quanto um mamífero outro qualquer possui mais felicidade e alegria no coração do que eles.

    Mas isso não quer dizer que eu não tenha gostado da postagem xD

  2. Adorei seu texto! Muita sensibiliade na descrição dos detalhes… Parabéns!

  3. Kenia Cris disse:

    Olá mocinha!

    Descobri você nas estatísticas do meu blog. Por que passou por lá e não deixou nada, para que eu viesse antes?

    O seu texto grita, é intenso, sofrido, carregado de sentimento. Eu já passei por isso aí. Algumas vezes. Muitas provavelmente. É, o sentimento de ‘não haverá ninguém igual a ele’ é real, porque ninguém é mesmo igual a ninguém, cada um vai ser diferente do seu próprio jeito e talvez você não goste do jeito do outro, talvez prefira aquele que já não tem. Mas o sentimento ‘nunca mais serei feliz’, não pense nele. Não atraia isso para a sua vida. Nada é eterno. O “Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar” do Tom Jobim é a maior mentira desde os contos de fadas – e olha que eu sou alguém que ainda espera viver um conto de fadas, mas Tom Jobim, não canto, não.

    Um dia você vai olhar pra trás perceber que passou. Talvez sinta um aperto no coração, uma pontinha de culpa por deixado a pessoa pra trás. Mas talvez sinta-se aliviada por ter quebrado uma maldição imposta a você por si mesma.

    Beijo carinhoso. =*

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